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quinta-feira, 12 de abril de 2012

Nietzsche contra Sócrates – cultura e tragédia, dionisíaco-apolíneo




Entre as várias “marteladas” de Nietzsche, encontra-se uma bem evidente: a crítica ao pensamento socrático. Assim como a religião judaico-cristã instaurou valores que envenenaram a humanidade, Sócrates para Nit, também contribuiu para os rumos funestos do desenvolvimento cultural e, conseqüentemente, do homem.
Foi em uma conferência intitulada“Sócrates e a Tragédia” que Nit atacou o pensamento socrático e, em suas palavras dirigidas por carta ao amigo Rohde, causou “susto e mal-entendidos”.
Na tentativa de compreender a oposição de Nit, vamos recordar um pouco do pensamento socrático. Sócrates foi um grande racionalista da época, sua máxima residia no famoso “conheça-te a ti mesmo” que em essência expressa uma alta valorização da consciência e da racionalidade enquanto elementos que nos permitem acessar o que é o “bom” e o “ruim”. Dentro das proporções desse texto, é importante situar Sócrates como aquele que coloca o conhecimento, construído unicamente pela razão e pela consciência, em uma posição central para o homem alcançar o que é de mais alto valor.
Por outro lado, para Nit, a consciência é algo que surge da necessidade do homem viver em sociedade (“rebanho”), sendo a linguagem um órgão a serviço da consciência que também surgiu das necessidades da vida coletiva. Dessa forma, o homem está limitado ao desconhecido. O homem é um Ser dotado de um corpo em sentido fisiológico e o subjetivo (pensamentos, linguagem, consciência) é um processo secundário e não o essencial, isto é, há vida independente da consciência se revelar. O subjetivo passa a ser criação do homem vivendo em sociedade e a consciência a frágil casca fina que encobre as profundezas do Ser.
Dentro desse contexto, é bom ressaltar que Nit arquiteta sua filosofia na desconstrução de valores que até então os homens têm se apoiado enquanto diretrizes para a humanidade. Não por pura rebeldia e insatisfação com os valores da época, mas por assumir uma posição de que a verdade nos é inacessível, restando-nos lançar-se ao inaudito e buscar a realização. – Isso não significa resignação, pelo contrário, é lançando-se ao desconhecido e deixando se levar pelo encantamento que podemos dar sentido às vivências, buscando extrair do sofrimento inerente à condição humana o riso inebriante que se expressa em um contentamento que não é inteligível à consciência.
Nit está interessado em compreender como surgem os pensamentos e como fazer uso deles, não interessa para o seu empreendimento, seguir as diretrizes do homem racional e lógico que está subordinado a um sistema de valores criados por ele mesmo – quem irá nos interrogar quanto à verdade?
Na busca daquilo que se revela como essência do Ser, o inaudito, a consciência e a razão não nos serve. Daí que Nit ao longo de sua vida irá buscar exorcizar os demônios do homem racional e lógico que se agarra na razão e na consciência como redenção diante do desconhecido.
Para Nit, a alta valorização criada em torno da consciência e da razão limitou o inconsciente criativo e inibiu o homem diante do inaudito, do encantamento, do Ser.
No processo de análise da cultura, Nit lança mão de dois termos representados no conjunto de forças polares que atuam através dos contrários do “apolíneo-dionisíaco“. Através desse jogo de forças Nit busca compreender não só a cultura clássica, da tragédia grega, como também a cultura em geral no que diz respeito às suas dinâmicas e vitalidades.
Apolo é o deus da forma e da clareza, do nítido, da individualidade. Dionísio é o deus selvagem, do êxtase, das alegrias festivas e das orgias, dos impulsos desconhecidos da razão. As paixões, a arte, a criatividade, a música e a transposição de limites do Ser são representados no dionisíaco; a linguagem, a dialética, a consciência, a razão, o indivíduo em si, são representados no apolíneo. – Vale ressaltar aqui a influência de Schopenhauer. Na medida em que o dionisíaco representa o mundo como uma vontade impulsiva, força primária que ao mesmo tempo é criativa, cruel e desesperadora, assim como no “mundo da vontade” de Schopenhauer.
E é na tragédia grega, representado pelo dionisíaco, que se encontra o palco onde o Ser pode dançar e ultrapassar seus limites. Neste palco apresenta-se a relação entre linguagem e arte, palavra e música. A palavra está submetida a mal-entendidos e interpretações errôneas, vive à margem do Ser; a música surge como a verdadeira linguagem comum ao Ser que se faz ouvir.
Com o fim da tragédia Ser e consciência não podem se harmonizar, a consciência volta-se contra o Ser mas este lhe é inacessível. Eis Sócrates, aquele que expulsou a tragédia grega em nome da consciência, o funesto que deu início ao racionalismo que não dá ouvidos ao Ser. Sócrates em Nit representa o saber sem sabedoria.
Mas Nit vai além, desferindo seu golpe de misericórdia em Sócrates, colocando-o como representante sintomático – ao lado da religião judaico-cristã – de uma cultura patológica com conseqüências até a atualidade, regida em nome de valores como bom-ruim, belo-feio, certo-errado, bem-mal, verdade-mentira, isto é, valores criados pelo próprio homem que se voltam contra o homem, como se o Ser devesse justificar-se perante a consciência.
É bom ressaltar que as duras críticas contra Sócrates fazem parte de um pensamento arquitetado por Nit que tem como meta superior compreender a cultura enquanto obstáculo do desenvolvimento do Ser, ao mesmo tempo que nos apresenta possibilidades de superação através da visão dionisíaca. Estado, Religião e Cultura são três das grandes forças na qual o pensamento de Nit buscou investigar, sendo esta última a mais importante para ele.
A Cultura é o objetivo maior e na medida que Nit vai percebendo o quanto ela está subordinada aos objetivos do Estado, da economia, da política – dos valores -, vai ficando em profunda indignação. As culturas através das instituições, rituais, significados, representações, símbolos, leis, etc., representam forças contrárias ao dionisíaco, processos frágeis e ameaçadores criados em nome da consciência e da razão que fincaram um conjunto de valores que tem feito do Ser o escravo de si mesmo.
Diante de Sócrates e da religião judaico-cristã, eis o sepultamento do dionisíaco diante da civilização, um tempo de ameaça ao verdadeiro Ser criativo, da vontade de potência, do homem que busca um sentido que lhe é próprio.
Epílogo:
Analisar Cultura dentro da perspectiva de Nietzsche não é tarefa fácil, mas diante do breve exposto, cabe um questionamento, em parte, já feito pelo próprio filósofo. Diante de uma era marcada pelas ciências racionais e lógicas, da individualidade, da degradação do Ser, do singular e da criatividade, diante de visões otimistas elencadas no niilismo do progresso e do futuro, poderá o dionisíaco despertar-se?
Poderemos dançar no palco da tragédia grega ao encontro do inaudito que encanta ou estaremos condenados às meras sincronias de passos regidas pela consciência e linguagem do racionalismo “humano, demasiadamente humano”?

Fontes bibliográficas:
NIETZSCHE, F. O Nascimento da Tragédia. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.


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